Em novembro de 2018, o artigo “Entenda a 3a onda dos meios de pagamento” teve como objetivo resumir os movimentos da indústria de pagamentos no Brasil desde sua abertura e como as empresas de tecnologia para o varejo e marketplaces perceberam a oportunidade de gerenciar o fluxo transacional de seus clientes.

Nesse artigo pretendemos traçar um paralelo do movimento das fintechs com a evolução da indústria de software e infraestrutura computacional a partir do advento da computação em nuvem e da oferta de Infraestrutura como Serviço e Software como Serviço (Iaas e Saas em inglês). Além disso, apresentaremos o conceito de nuvem de serviços financeiros.

Com base nas análises expostas neste artigo, fica evidente que é possível se traçar uma correlação entre as indústrias de serviços financeiros e computacionais. Está havendo um progresso importante no desenvolvimento de plataformas B2B para serviços financeiros e de pagamento no mundo que permitem que desenvolvedores e empresas criem soluções de pagamento do zero a partir da integração de APIs (sigla em inglês para Application Programming Interface) que são códigos de programação que permitem o acesso a dados e funções de outra empresa. Hoje o maior case global de plataforma de pagamentos já atingiu um valuation de mais de 20 bilhões de dólares em menos de 10 anos de sua fundação.  

A influência da internet nos serviços de tecnologia

Desde o surgimento da internet, observa-se o acesso a um número cada vez maior de dados e informações que crescem exponencialmente ano contra ano.

Com a internet, é possível acessar qualquer tipo de informação em qualquer lugar. Isso se deve à natureza descentralizada e democrática que forma a base da “tecnologia da internet”. Com o seu crescimento ao longo dos anos, foram criadas empresas que possuem grandes Centros de Processamento de Dados, os chamados datacenters.

Com o avanço da internet surgiu o conceito de Cloud Computing (computação em nuvem), na qual é possível pagar pelo armazenamento e processamento de informações, sem a necessidade da existência de infraestrutura interna (software e hardware), utilizando-se terceiros como provedores destes recursos.

Essa terceirização permitiu que empresas e startups tivessem acesso a grande estruturas de dados, economizando com investimento em Tecnologia da Informação. O software passa a ser oferecido como um serviço e não mais como um ativo onde a empresa compra uma licença. Por meio de assinaturas é possível contratar serviços tecnológicos hospedados na nuvem, ou seja, a informação fica localizada nos grandes datacenters de empresas de tecnologia. Alguns exemplos são os serviços de hospedagem, armazenamento e processamento oferecidos por gigantes como Amazon (através da Amazon Web Services) Microsoft, Google entre muitos outros. Foi desta forma que a internet estabeleceu um novo conceito de governança de Tecnologia de Informação.

A nuvem criou oportunidades onde sua opção de serviços já é uma realidade nas pequenas e médias empresas, pela redução de custo que ela oferece. Dentro de poucos anos será um fator de competitividade. O acesso à internet cada vez mais rápido permite que tudo aquilo que as companhias armazenavam em computadores pessoais e servidores internos, seja transferido para “supercomputadores” – geralmente milhares de computadores de médio porte formando os datacenters – que armazena e processa bilhões de outras informações. O acesso é simplificado pelo uso de um navegador (browser) que permite que sistemas e informações sejam recuperados de qualquer lugar do planeta.

Como a internet vem facilitando o acesso aos serviços financeiros ?

Assim como em infraestrutura tecnológica, o acesso aos serviços financeiros estão começando a se tornar cada vez mais virtuais. O crescimento do modelo das fintechs possibilitou que empresas e pessoas passassem a ter acesso a serviços que antes eram acessíveis somente a grandes instituições financeiras (oferta de crédito, instrumento de pagamento, etc.) e a pessoas com um nível de renda elevado (cartão de crédito, conta bancária, financiamento, etc.). O Brasil está sendo o pioneiro mundial na criação de fintechs, chegando a mais de 500 novas empresas segundo a Associação Brasileira de Startups.

A concentração do setor financeiro no Brasil e o alto índice de desbancarizados (aproximadamente 40% da população) propicia um ambiente para inovação e uma oportunidade para novos entrantes no setor. Outros países em desenvolvimento já possuem fintechs com valor de mercado na casa do bilhão de dólares e que propiciam diversos serviços a empresas e usuários, desde gateways para cobrança online à soluções de pagamentos instantâneos muito bem disseminadas.

É comum que empresas que desejam ingressar no setor financeiro e de meios de pagamentos, acreditem que passar por todo o processo regulatório e de desenvolvimento de tecnologia seja necessário para criar a sua fintech. Uma demonstração disso é o crescimento do número de adquirentes e subadquirentes no Brasil que, segundo o Banco Central, já atinge, na ordem, mais de 20 e 200, além dos pedidos de licença de Instituição de Pagamento no Banco Central.

O conceito de “nuvem” no setor ainda não está muito bem disseminado. Entretanto é possível notar que ele se aplica a indústria das fintechs, uma vez que, semelhante ao que aconteceu com o movimento puxado pela Amazon Web Services de Cloud Computing, onde empresas de tecnologia descentralizaram o poder computacional, a indústria financeira está sofrendo uma descentralização e desmaterialização com as diversas plataformas que integram todos os agentes da cadeia financeira e de pagamentos para quem deseja montar a própria fintech.

A maneira como as empresas que atendem a lojistas e vendedores vão lidar com esse movimento irá afetar o seu nível de competitividade. Muitas empresas de tecnologia para o varejo que adotaram o modelo de SaaS ou que ainda estão no modelo de licenciamento, estão começando a buscar novas fontes de receita para se diferenciar. A criação de ofertas de alto valor aproveitando a oportunidade e o time to market, irá definir os líderes do setor nos próximos anos.

Como construir uma fintech está ficando cada vez mais fácil ?

A computação em nuvem promoveu uma nova forma de estrutura computacional onde diversos tipos de computadores pessoais funcionam como terminais e a infraestrutura própria de servidores deixa de ser uma prioridade.

Assim como nos serviços computacionais, pagamentos e serviços financeiros estão seguindo pelo mesmo caminho. O sucesso de empresas como a AWS (Amazon Web Services) que democratizou para o mundo o acesso a serviços tecnológicos antes só possíveis por empresas com alta capacidade de investimento está se reproduzindo no setor financeiro. Historicamente, é possível perceber que plataformas de nuvem como a AWS ajudaram no surgimento de milhares de startups pelo mundo que passaram a ter um acesso a um poder computacional sem escalas e com possibilidade de pagamento conforme o uso.

Com o surgimento de plataformas B2B baseadas em tecnologia, qualquer empresa hoje que tenha uma base de vendedores pode terceirizar processos complexos de compliance, regulatórios, de desenvolvimento de software, certificação com os agentes da cadeia de pagamentos entre outros. Integrando APIs de terceiros, qualquer negócio consegue atender ao tempo de colocação de um produto no mercado (o chamado “time to market” em inglês). Além disso, o processo de inserção de uma empresa no mercado de pagamentos gera um custo e trabalho suficiente para tirar uma empresa do seu foco (core business).

Na era da nuvem computacional, grandes empresas economizaram investimentos, startups tiveram acesso a serviços de alto nível a um custo acessível e pagamento conforme a utilização. Plataformas tecnológicas de serviços financeiros vão acelerar a inovação no setor financeiro e a criação de fintechs para diversas finalidades.

Assim como os gigantes de tecnologia criaram os supercomputadores, veremos no curto prazo o surgimento dos “superbancos”. Na era das fintechs e das nuvens de serviços financeiros, as empresas que ingressarem no setor se conectando à plataformas financeiras poderão contar com a economia do maior ativo do mundo, o tempo. Este é, sem dúvida, o maior custo de integração com o sistema financeiro em qualquer lugar do planeta.

Daniel Teixeira é investidor, Head de marketing e BizDev na Zoop, entusiasta de tecnologia com 10 anos de experiência em gigantes do setor.

Head de Marketing